Uma das necessidades humana mais antigas é ter alguém para se perguntar onde você está quando não volta para casa à noite." Margaret Mead
Todos nós conhecemos a sensação de receber aquele telefonema no meio da noite. O telefonema daquela noite não foi diferente. Pulando da cama para atender àquela convocação tilitante, focalizei os números vermelhos e luminosos do relógio. Meia-noite. Pensamentos aterrorizantes enchiam minha mente, um tanto atordoada pelo sono, quando agarrei o fone.
-Alô?
Com o coração ribombando dentro do peito, segurei o fone com mais força ainda e olhei para meu marido, agora de frente para mim.
-Mamãe? - A estática mal permitia que eu ouvisse o sussurro. Mas meus pensamentos imediatamente voltaram-se para minha filha. Quando o som desesperado de uma voz jovem e chorosa ficou mais nítido através da linha telefônica, tateei em busca de meu marido e pressionei seu punho.
-Mamãe eu sei que é tarde. Mas não...não diga até eu terminar. E antes que você pergunte, sim, eu andei bebendo. Quase perdi a direção e saí da estrada há alguns quilômetros e...
Resfoleguei - um arquejo brusco, entrecortado. Soltei meu marido e pressionei a mão de encontro a testa. O sono ainda anuviava a minha mente e tentei vencer o pânico. Algo não estava certo.
-Fiquei tão assustada. Só conseguia pensar no tamanho da sua dor se um policial batesse à sua porta para lhe dizer que eu estava morta. Eu quero...eu quero ir para casa. Sei que você está doente de tanta preocupação. Eu deveria ter ligado há dias, mas estava com tanto medo...com tanto medo...
Soluços do mais profundo sentimento fluíram de dentro do fone e desaguaram no meu coração. Imediatamente visualizei o rosto de minha filha e meus sentidos enevoados pareceram clarear.
-Acho...
-Não! Por favor, deixe-me terminar! Por favor! - ela implorava, menos por zanga do que por desespero.
Fiz uma pausa e tentei pensar no que dizer. Antes que pudesse ir em frente, ela continuou:
-Estou grávida, mamãe. Sei que não deveria estar bebendo agora...justamente agora, mas estou com medo mamãe. Com tanto medo!
A voz se calou outra vez e eu mordi o lábio sentindo os olhos umedecerem. Olhei para o meu marido sentado, imóvel, fazendo movimentos com a boca sem emitir um único som. "Quem é?"
Balancei a cabeça, e como não respondi, ele pulou da cama e deixou o quarto, retornando segundos depois com o sem-fio colado ao ouvido.
Ela deve ter ouvido o clique da linha, pois continuou:
-Você ainda está me ouvindo? Por favor, não desligue! Preciso de você. Estou me sentindo tão sozinha.
Apertei o telefone na mão e fitei meu marido em busca de orientação.
-Estou aqui, eu não desligaria o telefone - disse eu.
-Eu deveria ter lhe contado, mamãe. Sei que deveria ter lhe contado. Mas quando a gente conversa, você só fica dizendo o que eu devo fazer. Lê todos aqueles folhetos sobre como conversar com os filhos sobre sexo, e tudo o mais, mas só faz falar. Você não me escuta. Nunca deixa eu lhe dizer como me sinto. É como se o que sinto não tivesse importância. Como você é minha mãe, acha que tem todas as respostas. Mas algumas vezes não preciso de respostas. Só quero que alguém me escute.
Engoli o bolo que se formava em minha garganta e fiquei olhando, fixamente para os folhetos de "Como conversar com seus filhos" espalhados sobre a mesinha-de-cabeceira.
-Estou ouvindo - sussurrei.
-Sabe, lá na estrada, quando consegui controlar o carro outra vez, comecei a pensar no bebê, em cuidar dele. Então, vi o telefone público e foi como se pudesse ouvir você dizer que ninguém deve beber e dirigir. Então chamei um táxi. Quero ir para casa.
-Que bom, meu bem - afirmei, o alívio inundando o meu peito.
Meu marido chegou mais perto, sentou-se ao meu lado e entrelaçou os dedos nos meus. Compreendi, pelo toque, que ele achava que eu estava fazendo e dizendo a coisa certa.
-Mas sabe, acho que já consigo dirigir.
-Não! - Vociferei. Meus músculos enrijeceram e eu apertei ainda mais a mão do meu marido. - Por favor, espere o táxi. Não desligue até o táxi chegar.
-Eu só quero ir para casa, mamãe.
-Eu sei. Mas faça isso pela mamãe. Espere o táxi, por favor.
Fiquei ouvindo aquele silêncio, amedrontada. Quando a resposta não veio, mordi o lábio e fechei os olhos. De alguma maneira, eu precisava impedir que ela dirigisse.
-Pronto, o táxi chegou.
Só senti a tensão diminuir quando ouvi alguém ao fundo perguntar sobre o táxi.
-Estou indo para casa, mamãe. - Então fez-se um clique e o telefone ficou mudo.
Levantando da cama com lágrimas formando em meus olhos, atravessei o corredor e fui até o quarto de minha filha de dezesseis anos. O silêncio sombrio fazia pesar o ar. Meu marido chegou por trás de mim, passou os braços em torno de meu corpo e pousou o queixo no topo de minha cabeça.
Sequei as lágrimas das faces.
-Precisamos aprender a escutar - disse-lhe.
Ele me virou para que eu pudesse encará-lo.
-E vamos aprender. Você vai ver. - Então me abraçou e eu afundei a cabeça em seu ombro.
Deixei que ele me abraçasse por diversos minutos, então me afastei e cravei os olhos na cama. Ele me fitou por um instante e, então, perguntou:
-Acha que algum dia ela vai se dar conta de que discou o número errado?
Olhei para nossa filha, adormecida, e novamente para ele.
-Talvez não tenha sido tão errado assim.
-Mãe, pai, o que é que vocês estão fazendo? - perguntou aquela vozinha jovem, chegando abafada de debaixo do cobertor.
Aproximei-me de minha filha, que agora se encontrava sentada, olhos fitando a escuridão.
-Estamos treinando - respondi.
-Treinando o quê? - murmurou ela, deitando-se outra vez sobre o colchão, os olhos já fechados, o sono chegando.
-A escutar - disse eu, bem baixinho, roçando a mão levemente em sua face.
Essa história me emocionou profundamente, então desejei compartilhá-la com vocês, mesmo sendo tão longa.
Que possamos aprender a ouvir mais as pessoas, e sermos usados por Deus para abençoar as suas vidas, principalmente os que estão sempre ao nosso redor, os que amamos.
Uma semana abençoada pra todos!